Vazio: “estamos compondo o sucessor de Eterno Aeon Obscuro”
23/07/2021 | Por

A banda Vazio conversou com o nosso redator Pedro Hewitt e compartilhou com a gente muito de sua filosofia e traz detalhes sobre o Eterno Aeon Obscuro, seu último álbum lançado e 2020. Renato Gimenez fala a respeito do álbum e também sobre política e muito mais. Confiram.

Pedro Hewitt – O Vazio iniciou seus trabalhos em 2016 com vários integrantes oriundos de importantes bandas do cenário nacional que acompanho a anos. Como foi o nascimento do projeto e a escolha pelo Blackened Crust?
Renato Gimenez: Primeiramente obrigado pelo espaço e pelo interesse na obra do Vazio. Fundamos a banda em 2016 eu e o Daniel Vecchi, quando ainda fazíamos parte do Social Chaos. A nossa idéia era tocar metal ainda mais extremo com temática ocultista aprofundado em experiências e conhecimentos na via sinistra. Sobre o “Blackened Crust”, eu curto algumas bandas dessa pegada, mas não acredito que o termo se aplique a música do Vazio, mas esta é apenas a minha opinião. O punk está nas nossas vidas, nas atitudes diárias, no espírito de rebelião social, como combatemos esse sistema de merda e sobrevivemos a esse país. Já o Vazio é uma banda de Black Metal, hoje formada por membros e ex-membros de bandas como Armagedom, Creptum, Nuclear Frost entre outras muitas bandas que fizemos parte.

Pedro Hewitt – Enquanto o podre e sujo cristianismo veem um estado de vazio como uma condição indesejada e negativa, em algumas filosofias é visto como uma natureza sem distinções e dualidades, que vê através da ilusão independente da própria natureza, uma anedonia. A filosofia composta pela banda segue este conceito ou elaboraram um estudo aprofundado para um melhor conceito?
Renato Gimenez: O conceito veio se formando assim como as músicas foram surgindo, como chaves para um mistério maior. Compondo as músicas do Vazio, os temas se entrelaçam, entre o caminho da filosofia e sua relação entre a escuridão da alma e o irracional. Com temas que também passam pelo luciferianismo, xamanismo ancestral, assim a cabala draconiana e as manifestações de entidades do culto aos mortos, esses são temas que fazem parte da cosmovisão que o Vazio propõe, e nesse vórtex não cabem os dogmas do cristianismo alienador e punitivo, e tampouco tenho vontade de falar sobre isso nas letras, acho que algumas coisas já foram feitas à exaustão dentro do estilo e funcionaram em suas devidas épocas mas nossa busca é pelo renascimento das ideias, das artes negras e do pensamento combativo underground. Fazer mais do mesmo não está nos nossos planos, tanto nas letras quanto na música tentamos dar um passo além, respeitando nossas limitações e com respeito ainda maior aos que fizeram a chama queimar antes de nós.

Pedro Hewitt – Conhecendo os projetos paralelos de vocês, ênfase ao Social Chaos, Armagedom, Nuclëar Fröst, existe uma conexão que faz uma linha entre o Crust e Black Metal casarem super bem. Foi citado que irá vir a ser lançado um split com uma das bandas mais barulhentas do cenário de Queretaro (México), o Skid Raid. Seria uma coincidência ter uma união de duas bandas que possuem sonoridade parecida e com pensamentos que giram sob o mesmo espaço?

Renato Gimenez: Conhecemos os mexicanos do Skid Raid quando tocamos junto em 2017 em Gent na Bélgica, e foi muito massa conhece-los, as ideias bateram na hora e combinamos esse Split. Será um CD lançado no México, mas também com versão brasileira. Sou muito amigo do Antimo (guitarra do Skid Raid e do Hacavitz), não vejo a hora desse material sair. O material todo foi composto durante a pandemia de março à dezembro de 2020, gravamos tudo separado, sem muita interação física, então foi um desafio maior compor, gravar e gerar o material nessa situação de distanciamento e colapso. Mas estou ciente que temos boas músicas para mostrar pro nosso público e pra galera do México também. Assim como num futuro próximo, fazer uma tour por lá e trazer o Skid Raid pra tocar nas terras brasileiras também, os cara são gente boa, são pessoas ativas no underground já a muito tempo e a banda é sensacional. Lembrei que tem um dos caras do Skid Raid que tem uma outra banda foda também que chama “In Obscurity Revealed”, confiram.

Pedro Hewitt – César Sánchez é um monstro dos projetos, creio eu que ele tenha tocado com Escarnium (Bahia) algumas vezes, uma pena o Hacavitz não poder vir ao Brasil por conta do vírus. Sob a parceria que está vindo por aí, como percebem a inserção de mais um disco no cenário nacional? Aliás, como vocês olham o mercado musical para as bandas que estão crescendo aos poucos?
Renato Gimenez: Tanto o Escarnium quanto o Hacavitz são bandas que gosto, possuem um forte trabalho. Vejo nesse lançamento do Vazio com o Skid Raid do México mais uma união underground que se solidifica, gerando esse disco split. Esse trabalho foi composto de um jeito atípico para gente e sua sonoridade reflete um pouco isso, cada um no seu espaço, nas suas casas, trabalhando para conclusão de um material em comum. Acredito que carrega um grande impacto emocional essas faixas que fizemos para esse trabalho. As composições seguem na linha extrema mas de um outro jeito que não havia tido tanto contato antes, acredito que adicionamos mais melodia de tristeza, pesar e invocação de forças mortuárias, e foi por causa da vibração de lamentação que se gerou nesse período de pandemia e toda desgraça que enfrentamos nesses últimos tempos…

Pedro Hewitt – Muitos confundem as variantes ideias existentes num gênero tão variado que é o Black Metal, estes mesmos quando possuem um certo contato com músicas desse gênero, costumam logo de cara idolatrar ao satanismo como um todo. É fato que o Vazio se encaixa em uma determinada oposição ao conhecimento do mensurável, às severas leis de excesso severo, enfim, desde o primeiro EP vocês representam uma linha de pensamento na qual motiva a se opor contra qualquer dogma do cristianismo ou religião existente. O que podem comentar a respeito?
Renato Gimenez: Uma renovação das energias nos trouxe às artes negras, um chamado. E assim respeito muito o caminho que nos foi dado. Carregamos conosco uma egrégora de fogo onde não cabem alguns valores que antes eram ostentados. Nas letras trago a espiritualidade ancestral e também o ódio dos mortos que abençoaram nosso caminho. Satanás é o arquétipo da revolta por ser ele mesmo a iluminação da sabedoria, isso se reflete no nosso meio onde muitos se identificam com o símbolo, mas nem sempre com sua real vibração energética. Por isso apenas alguns são escolhidos para caminhar nos infernos sem se queimar.

Pedro Hewitt – Levando em conta a pergunta anterior, dois anos não foram dois meses, é um processo árduo que existe em uma obra prima, que faz com ”Eterno Aeon Obscuro” foi, continua sendo e será mais ainda um grande lançamento para o cenário extremo. 2020 pelo Brasil foi um susto para todos, a pandemia não estava aos nossos olhos, mas sob nossos lares, pelo ar, pelas ruas, porém mesmo assim vocês lançaram o material. Porque a decisão, já que estavam com tudo pronto, ou porque não deixaram pra 2021 (mesmo sabendo que haverá um novo disco)?
Renato Gimenez: Obrigado Pedro, o disco teve uma boa repercussão mesmo sendo lançado em março de 2020, bem na primeira onda da pandemia. Temos composto bastante material e sabia que não poderíamos segurar esse lançamento, foram dois anos produzindo o disco , então foi essa estratégia, lançamos um clipe ao vivo, pra faixa “Elementais da Matéria Escura”, fizemos um lyric vídeo pra “Nascido do Fogo” e um clipe oficial para a faixa título “Eterno Aeon Obscuro”. Saíram mil cópias no Brasil e mais 500 em Portugal em CD. Também saiu uma versão em vinil azul com tiragem esgotada de 350 copias. No momento estamos compondo o sucessor desse trabalho.

Pedro Hewitt – Com a pandemia existente, a área cultural ficou extremamente prejudicada, já é difícil para nós do Underground, imagina agora. Paralisação, pausa de ensaio, restrições e lives está desde o início tentando contornar o momento. Como lidaram e lidam com isso? Inclusive, será que este ano ainda poderemos ver o Vazio em algum palco presencialmente?
Renato Gimenez: Ainda é cedo dizer se vai ter show esse ano, mas acho que não, mesmo com o avanço da vacina. Como você disse, o setor cultural teve um grande atraso. Creio que vamos demorar muitos anos pra conseguir voltar a ter o ritmo que tivemos, isso se tratando de número e qualidade de casas de shows e etc. Pagamos muito caro toda essa merda que aconteceu com o Brasil.

Pedro Hewitt – As letras não são algo para ser estética, é realista, sinistra, legítima e verdadeira. Qual a importância do português hoje em dia no Underground?
Renato Gimenez: Cantar em português traz muito mais propriedade e força nas palavras, para mim sinceramente é natural. Sempre tive bandas com letras em português, oque muda é a abordagem.

Pedro Hewitt – O cenário nacional se renovou e se renova a cada dia, então qual o é o público de vocês? Com essa situação política que corre pelo país, o posicionamento pessoal e de banda faz com que haja divisores de águas. Levando isso em conta, o que difere o público do final da década de uns anos pra cá?
Renato Gimenez: Tudo mudou né, a cena não é diferente, o entendimento de alguns em aceitar as mudanças nas linguagens das artes é bem pessoal. Tem gente que ainda nos dias de hoje acha que misturar metal com política é errado, isso em 2021. Mesmo todo mundo morando nesse país fudido tem gente que concorda com governo militar e essas merdas. Bom, tem louco pra tudo. A cena underground sempre surpreende, pro bem e pro mal, mas nossa postura sempre vai existir, somos contra o sistema de exploração capitalista em suas mais variadas formas.

Pedro Hewitt – O cenário obscuro atualmente pelo Brasil possui a devida estrutura voltada para o Black Metal como deveria ser?
Renato Gimenez: Nunca houve estrutura decente né, e não vai ser agora que vai ter. Ainda é tudo bem precário, especialmente a maneira como a própria cena age. Oque existem são alguns guerreiros e guerreiras que possuem uma visão com iniciativa, e as vezes se juntam com alguns espaços que abrem suas agendas para eventos do metal satânico. E em termos de estrutura de som das casas de shows, é um desafio, a gente quase sempre leva nossos equipamentos para garantir nossa sonoridade e para respeitar o público que paga ingresso e merece ver uma apresentação decente. Mesmo em São Paulo que é uma grande cidade, hoje em dia são poucas casas com estrutura, maioria fechou na pandemia.

Pedro Hewitt – Vejo muitas pessoas deste meio usando desculpas que gêneros como o de vocês afastam regras sociais, causando atrito e criando fake news para fazer com que a música extrema não seja símbolo de resistência. O que acham?
Renato Gimenez: Acredito que não haja cartilha e que cada banda e cada artista traça seu caminho mediante as opções e escolhas que teu destino lhe dá. No passado o Black Metal foi conhecido pelas polêmicas e blasfêmias, esse espírito vive dentro das nossas críticas ao cristianismo e toda sua hipocrisia moralista. Mas não somos uma banda de copia comportamento ou pensamento dos outros, somos uma obra viva autoral, olhando para dentro das nossas vontades, a voz dos mortos prevalece e esse tem sido o caminho do Vazio. Mais do que qualquer outra coisa, somos uma banda que preza pela música.

Pedro Hewitt – Creio que sempre haverá a chatice da briga “Cenário Nacional X Cenário Internacional”, onde parece ser que o Brasil nunca ficará satisfeito com a bandas que existem. Apesar das reações variantes, o Death Metal se reformula e se atualizada, as vezes se recusa a perder sua relevância e naturalidade. Na visão do Vazio (Que não se perdeu); qual a visão da razão disso? Vivemos num país de bandas de extrema qualidade, isso é fato, escolha para a audição não deve faltar.
Renato Gimenez: Brasil é um país muito grande, muito pobre e fudido devido aos políticos e religiosos. Isso é a receita para termos uma cena musical muito produtiva, cheia de revolta e criatividade. Um fervo de ódio. Temos todo tipo de metal rolando, somos uma cena muito efervescente com muitas bandas de alto nível. Desde meus 15 anos eu toco guitarra no underground, já vi muita gente desistir de tocar música, eu etendo, sem incentivo é foda seguir, tem que ter muita certeza de que o que você está fazendo é relevante mesmo.

Pedro Hewitt – Ainda em relação ao já citado. O que você acham dessa galera que faz sucesso muito rápido hoje em dia. E desses movimentos em prol do Metal, como coletivos, etc?
Renato Gimenez: Acredito que sucesso é se manter íntegro na cena em tempos de tempestade e também nas glórias. Nem todo mundo que chega junto, veio para ficar. Já sobre a outra pergunta, creio que todo tipo de coletivo, associação e grupos que realizam ações práticas em prol da cena são legítimos. Ação direta transforma.

Pedro Hewitt – Sem muita enrolação; quais os tipos de bandas na atualidade que merecem ser entendidas como Underground e aquelas que, na opinião e referência de vocês, não merecem ser?
Renato Gimenez: Para mim o underground é uma atitude e não um estágio para se chegar em algum lugar.

Pedro Hewitt – Quando um ser que enfrenta uma crise por se sentir espiritualmente vazia consegue largar um ação compulsiva, geralmente apenas o troca por outro comportamento viciante, é um existência tentadora. Aqui podemos encerrar esta entrevista e ficamos gratos por elaborar conceitos e produzir registros que são incríveis. Saúde e vida longa ao Vazio. O espaço é todo de vocês!
Renato Gimenez: Obrigado pelo espaço Pedro e todos leitores, nos encontraremos em breve!

Para mais informações, shows e merchandise: https://www.facebook.com/VAZIOBLACKMETAL/?ref=page_internal

Fotos por: Divulgação. Official Fanpage. Leandro Cherutti.

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