Tarja: Um excelente show em São Paulo, sem depender em nada do Nightwish
10/09/2018 | Por

Texto: Daniel Tavares

São Paulo é mesmo uma cidade multicultural. Uma megalópole tão imensa que comporta dois shows de duas grandes bandas de Heavy Metal na mesma noite. Embora pelo cronograma não fosse necessariamente obrigatório escolher entre PARADISE LOST e TARJA, talvez o custo dos ingressos tenha obrigado muitos fãs a decidir por um evento ou outro. Uma pena, porque o apelo entre os fãs acaba sendo bem próximo (a primeira começou como Death Metal, mas aprofundou-se no gótico de tal maneira que chegou a criar um estilo próprio, enquanto a segunda vem do Metal Sinfônico, um estilo que conversa muito com o gótico), tanto que a primeira fora uma das atrações do Epic Metal Fest, festival promovido pela banda holandesa EPICA, cuja base de fãs é basicamente a mesma do NIGHTWISH e, consequentemente, da própria TARJA.

Quem optou pelo show da Diva finlandesa, divulgando seu último lançamento, “Act II”, encontrou a luxuosa casa lotada, mas nem tanto (a capacidade foi reduzida com a colocação de uma cortina no meio da pista comum). Mas isso não impediu que fosse um show memorável, cheio de simpatia e talento, tanto da diva como de cada um dos bem escolhidos músicos que a acompanham. Confira aqui como foi o show.

Tarja: Um excelente show em São Paulo, sem depender em nada do Nightwish

Foto: Fernando Yokota

REC/ALL

A abertura do show de TARJA no Tom Brasil (e em algumas outras cidades) ficou com a banda REC/ALL. Com dois quintos do ANGRA no line-up, outro quinto do ALMAH, a banda não escapa de ser vista como promessa do Power Metal nacional, mas sabe-se que estará sempre submetida às agendas das bandas principais. Pedro Tinello (bateria), Felipe Andreoli (baixo), Marcelo Barbosa (guitarra) e Rod Rossi (vocal) compõe o REC/ALL e apresentaram um power barulhento, com muita técnica e melodia. A banda, no entanto, para poder ser vista com respeito (e não como um “ANGRA de férias”) talvez devesse apresentar algo mais particular em suas próprias composições, como “Indestructible” e “Blind”, algumas das próprias que mostraram. Talvez um caminho para se livrar da alcunha de side project seja abandonar mesmo de vez as covers das “matrizes”, como “Angels and Demons”, do ANGRA, e BEYOND TOMORROW, do ALMAH.

Não que seja proibido tocar ANGRA (e o próprio Rod Rossi declarou ser “o fã do ANGRA mais sortudo desse planeta” ao pedir aplausos para Marcelo e Felipe), e sejamos justos, foi só uma de cada, mas, embora estes sejam os momentos do show que os fãs mais gostam (e este que escreve não se exclui), não é por causa deles que o público vai lembrar do nome REC/ALL. Com o line up que tem, com o conjunto de talentos tão bem encaixados, não tem como o REC/ALL fazer algo de nível que não beire a excelência (e é até uma obviedade dizer isso), mas para ter vida longa o supergrupo vai ter que mostrar algo que seja realmente seu. Pode ser que o caminho seja abraçar a influência de animes (Rod Rossi já era conhecido por interpretar canções dos Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball Z) lembrada no tema de Saint Seya, que fechou o show. Vejamos o que o futuro reserva à REC/ALL. E que seja um futuro brilhante.

Tarja

Mas a atração principal da noite era, claro, atende pelo nome de Tarja Soile Susanna Turunen Cabuli. A finlandesa de Kitee chegou acompanhada por uma superbanda, coesa e empolgada, determinados os seis (ela e os cinco músicos que a acompanham) a entregar para os fãs um show inesquecível.

 

Tarja: Um excelente show em São Paulo, sem depender em nada do Nightwish

Foto: Fernando Yokota

E, claro, é redundante dizer que houve muita gritaria quando ela entrou e começou o show com “No Bitter End”. “Estou supercontente, muito feliz de estar aqui novamente”, disse a moça em português claríssimo. “É muito bom ver vocês. Vamos dançar juntos”, completou antes de “500 Letters”, com o público dividindo-se entre palmas e pulos.

“Demons in You” começa num funkeado e vira uma canção pesada, tão pesada que em certos momentos o som do baixo lembra um death metal. Mesmo assim, ela interpreta sempre sorridente. E em “Little Lies” ela volta a recorrer à língua de Camões para pedir que os fãs levantem as mãos. E uma surpresa: “Eagle Eye”, não tão recorrente na turnê.

O povo pede por “Diva” e ela volta com uma coroa na cabeça para a canção. Há muita teatralidade em sua interpretação. E, por isso, mas por muito mais, no fim o público continua chamando: “Diva”, “Diva”, “Diva”.

Então TARJA permite-se falar sobre um assunto bem sério: “A próxima é sobre a natureza. A mãe natureza nos tem dado sinais de que não está se sentindo bem. Temos que tratá-la melhor. E vocês tem uma natureza tão bonita”. O discurso não é por acaso. “Calling from the Wild” é a canção seguinte. Nos telões atrás, imagens da natureza, tanto a linda quanto a que dá sinais de doença. Incêndios… Crianças no lixão…

A canção termina com solo de bateria. E de baixo. E de guitarra. E uma Jam com o celista correndo de um lado pro outro do palco numa festa extremamente empolgante.

Tarja: Um excelente show em São Paulo, sem depender em nada do Nightwish

Foto: Fernando Yokota

Depois de generosamente ceder espaço a seus músicos numa overdose de rock dos bons, a “Voz da Finlândia” volta para “Supremacy”, cover do MUSE que, em sua versão, até que fica bem metal sinfônico. E embora a cantora dependa cada vez menos dos hits de sua ex-banda, ouvi-los é algo que os fãs ainda querem. Então ela dá. O medley reunindo “Tutankhamen”, “Ever Dream”, “The Riddler” e “Slaying the Dreamer” é recebido com histeria. Ciente da passagem do tempo (coincidentemente TARJA e este que vos escreve nascemos na mesma semana, no mesmo ano, no mesmo mês), mas sem sofrer a ação dele, TARJA declarou “Obrigado por todos esses anos bonitos em que vocês estiveram comigo (22, desde que surgiu para o mundo com o NIGHTWISH) Eu gosto de envelhecer com vocês.”

Chega a hora do set “acústico”. Vem todo mundo para uma meia roda no centro do palco. Alex Scholpp (guitarra), Kevin Chown (baixo) com violões, Timm Schreiner (bateria) com um set reduzido (um tambor e um prato basicamente), Max Lilja (Celo) e o tecladista Christian Kretschmar vem com seus instrumentos pra frente também. Nesta parte, trechos de “Until Silence”, “The Reign”, “Mystique Voyage” e uma bela versão de “House of Wax”, de PAUL MCCARTNEY. E como dissemos, claro, “Lanterna dos Afogados”, dos PARALAMAS. Ela ainda precisa de um papel para acompanhar a letra, mas isso não impede que a plateia se entregue a gritos ensurdecedores num dos momentos mais marcantes do show. Nesta canção, o baterista volta pro set principal, lá atrás, afinal tem que fazer o que o Barone faz, não é? O fim, no entanto, onde haveria o solo de Herbert Vianna, soa delicado demais. Não é problema para o público. “Tarja, eu te amo. Tarja, eu te amo”, grita a “torcida tarjana”, recebendo, em português, de volta a mesma declaração. “Eu amo vocês”, responde a cantora.

Tarja: Um excelente show em São Paulo, sem depender em nada do Nightwish

Foto: Fernando Yokota

Mais uma que ficou bem conhecida na voz da própria TARJA nos tempos de NIGHTWISH, mas que na verdade é de Andrew Lloyd Webber, é “The Phantom of the Opera”, retornando para o show “elétrico”. “Eu comecei a ter aulas por causa dela. Eu queria saber como aquelas cantoras atingiam aquelas notas altas. Eu ainda estou assim assim”, confessa, modesta a cantora. “Love to Hate” e “Victim of Ritual” aparentemente encerram o show, mas todo mundo sabe que haverá um bis.

E que bis. Nada menos que mais quatro canções encerram definitivamente o show. Em “Innocence” u mar de braços para um lado e para o outro é no que o Tom Brasil se transforma. E até um ursinho, alguém da plateia que dá, a cantora recebe de presente. “Vamos sentir falta de vocês, São Paulo”, declara a diva, enrolando-se numa bandeira brasileira enquanto todos acompanham com o “ooooooooo” em “Until My Last Breath”. E, note-se, o celista, consegue, sabe-se lá como, tocar “correndo” (no mesmo lugar, como numa esteira). É o último suspiro do show, mas, embaixo, o público aproveita cada derradeiro segundo para repetir o coro “Tarja, eu te amo”.

Tarja: Um excelente show em São Paulo, sem depender em nada do Nightwish

Foto: Fernando Yokota

Claro, boa parte destes (quase todos, poderíamos dizer), estará no mesmo Tom Brasil no fim do mês vendo a segunda sucessora de TARJA dando voz à continuação da discografia do NIGHTWISH e talvez repita o mesmo coro, “Floor, eu te amo”, mas, assim como mostrou ser uma estrela independente com seus próprios discos e escolhendo a dedo cada um dos seus músicos de apoio, TARJA pouco ou nada quer saber disso. E, cá pra nós, é sempre melhor ter duas grandes bandas lançando álbuns memoráveis que uma só, com membros fora de sintonia e lançamentos burocráticos e pouco inspirados puramente para atender questões comerciais. Vida longa a Tarja Cabuli. Vida longa ao NIGHTWISH. E que voltem todos ao Brasil muitas vezes, para longas turnês, sem esquecer de passar, no entanto, sempre por Fortaleza.

Antes de fechar, temos que ressaltar que, mais uma vez, o Tom Brasil dá aula de respeito aos portadores de necessidades especiais, com uma parte da pista preparada e bem posicionada para receber bem e com o respeito devido a todos aqueles fãs com mobilidade reduzida, seja por qualquer motivo (obesidade inclusive).

Agradecimentos:
Mírian Martinez, por toda a atenção.
Fernando Yokota, pelas imagens que ilustram esta matéria.

Set Lists

Rec/All

Running in Her Veins
IHate
Angels and Demons (Angra)
Indestructible
Blind
Beyond Tomorrow (Almah)
Rio Riots
Pegasus Fantasy (Saint Seya)

Tarja

1 – No Bitter End
2 – 500 Letters
3 – Demons In You
4 – Little Lies
5 – Eagle Eye
6 – Diva
7 – Calling From The Wild
8 – Supremacy (Muse Cover)
9 – Tutankhamen/Ever Dream/The Riddler/Slaying The Dreamer (Nightwish medley)
10 – Until Silence/The Reign/Mystique Voyage (Medley acústico)
11 – House of Wax (Paul McCartiney)
12 – Lanterna Dos Afogados (Paralamas do Sucesso)
13 – The Phantom Of The Opera (Andrew Lloyd Webber)
14 – Love To Hate
15– Victim of Ritual
Bis
15 – I Walk Alone
16 – Innocence
17 – Die Alive
18 – Until My Last Breath

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