KrapulA: “O dito nicho underground está poluído” – [Entrevista exclusiva]
30/03/2021 | Por

Pernambuco é uma das escolas mais potentes e influentes quando se trata de death metal, e onde respeito e apoio bandas que batalham na resistência à sonoridade pesada musical nos dias de hoje. Honrando os verdadeiros moldes do death metal, entrevistei a banda KrapulA. Confiram:

Pedro Hewitt – O Underground nos presenteia de correrias, boas histórias, alguns estresses e, claro, amizades que saem de onde menos esperamos. Graças ao The Iguana’s Attäck Vol.1 conheci o KrapulA, mesmo já tendo visto uma matéria relacionada. Entretanto, ao receber os áudios através do grandioso Danilo Duca, não teve jeito: além de som para toda obra, é amizade além de banda. Fala aí Danilo! Apresenta o KrapulA.

DANILO – Grato pelo crédito, Hewitt. A participação na coletânea foi muito significativa para nós, pois foi a nossa primeira participação em uma. Considerando toda a situação que deixou o mundo descompassado, estamos bem (na medida do possível), com saúde, cuidando da família e dos afazeres (profissionais, educacionais e, claro, os relativos ao KrapulA). Temos uma rotina mais que puxada, mas afinco não falta. Sobre os membros, vamos lá. Bartolomeu Fontes é o único membro originário e ocupou a função de baixista até nas gravações do EP “Odes To Chaos”, onde assumiu de vez os vocais. Mora em Santos/SP e hoje em dia estuda e trabalha com veterinária, sendo ativista nesse campo. Graydson Romano, o “dono da guitarra”, é o segundo membro mais antigo, batalhador desde cedo, trabalhou no ramo de construção e atualmente tem uma loja de automóveis. Francisco Olay é nossa mais recente aquisição, amigo antigo que veio da atividade na cena Stoner e caiu como uma luva ao assumir o contrabaixo na banda. Por fim, sou advogado atuante na área de direito de trânsito, servidor da saúde vinculado ao Estado de Pernambuco, escritor e, assim como Romano e Olay, sou pai. No KrapulA, sou o baterista.

Pedro Hewitt – Com músicos de extrema competência devido aos anos de trabalho em vias de projetos paralelos, não é um mistério do que cada um ouve para distribuir os fatores nas faixas. A ideia segue a mesma desde o início ou passou por mudanças com a alteração de formação e conhecimento?

DANILO – Creio que tenhamos reciclado as influências, e as alterações indigestas na formação ajudaram a filtrar esse processo. Tentamos sempre manifestar novas leituras de brutalidade, tanto que atualmente abordamos temáticas mais contundentes do ponto vista geopolítico e social, haja vista que algumas mudanças ocorridas nos últimos anos mostraram que a civilização ainda está fadada ao retrocesso. Sonoramente falando, acredito que temos a formação com a melhor química, mas os processos de composição e lapidação das pedradas não tem mistério: expomos as ideias, mineramos os riffs e grooves que melhor apetecem para aquela proposta pontualmente e não nos prendemos a rótulos. Todos têm liberdade para compor e as ideias são tratados de forma homogênea.

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Pedro Hewitt – Com o nascimento em 1992, na época talvez as dificuldades fossem dez vezes piores do que hoje em dia, foi isso que resultou o lançamento da demo “Breaking Teeth” em 1998?

DANILO – De fato, o processo para engajar uma gravação era mais complicado, tendo em vista dificuldades financeiras e técnicas, pois não tínhamos o conhecimento que temos hoje. Mas já era tempo da banda ter algo registrado e à época fizemos um esforço que a nosso ver foi compensado na dose certa com o tempo, porque foi a demo que deixou nosso parco legado vivo. Não esperávamos, mas o registro é tido como uma boa referência para os apreciadores do estilo mais chegados a nós. Alguns tocam em bandas de brutal death metal formadas após a origem do KrapulA e saber que tivemos ou temos influência no bom trabalho deles é nos deixa muito feliz.

Pedro Hewitt – Porque resolveram resgatar as faixas antigas, dar uma repaginada e lançar o EP “Ode To Chaos” 19 anos depois?

DANILO – Como a banda passou muito tempo parada e a demo não teve uma distribuição/divulgação adequada, calhamos em reaver o teor da “Breaking Teeth” e incorporar duas composições da fase atual da banda. Foi um divisor de águas e ao mesmo tempo um elo de ligação entre duas eras distintas, cujo hiato se deu por cerca de 15 anos. Alcançamos antigos apreciadores e também gente mais nova. O resultado vemos como satisfatório.

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Pedro Hewitt – “Ode To Chaos” possui uma lírica devastadora, um trabalho incrível que lembra muitas bandas americanas. Nesse contexto, as críticas e referências existentes com a ideia de combater atrocidades e religiosidade, foi considerado uma linha estética ligada aos temas quando foi criado o projeto/material?

DANILO – Boa pergunta. No início, a temática era Gore/Splatter, muito em decorrência das bandas que gostávamos. Quando do nosso retorno, já tínhamos decidido abordar temas voltados ao enfrentamento do imperialismo e do conservadorismo, da alienação em qualquer das vertentes, seja política, social ou religiosa e, principalmente, fincar definitivamente que fazemos parte de uma frente libertária. Mas o único fator que incidia na fase inicial da banda e ainda influi na parte lírica é apontar a fonte da geração gratuita de violência: as manifestações de ódio que todos presenciaram ao redor do mundo nos últimos anos mostram que o ser humano ainda é muito influenciado e tendente à fantasias supremacistas, cujo delírio pode transformar qualquer cenário em uma praça de guerra. Isso gera muito enredo que pode ser lançado numa letra.

Pedro Hewitt – É muito interessante todo o contexto sobre posicionamento, e óbvio, ter isso como uma arma na mão. Considerando que muitos se revelaram ao longo desses anos, o Krapula é direto e reto internamente e externamente em relação ao que pensam, então como vocês mantém a banda em constante movimento contra a corja reaça?

DANILO – Vejo que não temos a mínima aspiração com retrógrados ou com os que são da “ala do atraso”. É uma pena ver muitos que curtiram a noite e dividiram palco com você se portando como freiras e envelhecendo na alma. De minha parte, isso ficou evidente quando, num show grande em Recife, um cidadão que usava a camisa de uma banda crossover, ficou desmerecendo a tradicional roda que acontece nos festivais(!). Na hora pensei: “Não podem se criar”.

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Pedro Hewitt – Não só a música extrema, mas também outros meios estão infectados tomando nossa cultura, estratégia, educação e até nossos eventos. Então é mais que uma batalha proteger o aspecto de identidade e ideologia, ainda mais com o tipo de som que executam. De onde sai tanta inspiração e ódio?

DANILO – O mundo nos proporciona o manancial. A vida de muita gente é uma desgraça, então para ajudar um ou outro a quebrar paradigmas, direcionamos um dia ruim para um acorde, um riff, um fragmento de letra que seja. É um filtro muito adequado para se manter o equilíbrio e empresta uma energia extra às composições. Temos nossa ideologia, mas nosso entendimento não permite nos pautarmos em tendências utópicas: sabemos porquê fazemos, sabemos como fazer e também até onde podemos ir. E esse método de canalização é uma fórmula que está muito adensada no cotidiano da banda. Acredito que jamais abriremos mão dele.

Pedro Hewitt – O Krapula já possui uma raiz forte desde 1992, então mudanças acontecem, evoluem, regridem. Vocês acham que o Brutal Death Metal em especial tendem ao conservadorismo?

DANILO – O dito nicho underground está poluído. Nenhum está a salvo desse contingente indigesto, seja qual for (HC, punk, veias alternativas outras e muitas). Não tendo como evitar a “invasão”, ao menos é possível não gerar atrito: que criem o nicho deles: ungido, reacionário e com um pé nos “padrões”). Infelizmente, tratando do BDM, era pra ser o contrário: é um segmento musical muito violento que denota ojeriza total ao panorama da sociedade como um todo. Mas por ter obtido um apelo comercial muito grande, em razão das bandas mainstream do estilo, a exposição midiática acabou por trazer fãs de outras vertentes que sequer se identificam com as raízes do segmento.

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Pedro Hewitt – Porque será que um gênero como metal, que fala tanto de união, amor, causas importantes e humanitárias possui tanto “nazi”?

DANILO – Aí está um dos maiores mistérios da humanidade (risos). Mas lhe sendo sincero, não tenho resposta para isso, mas acrescento: nunca podem ser aceitos pois representam uma parcela imunda da população mundial. Afinal, como se identificar com um regime que fez questão de expandir as divisas para subjugar e se autoproclamar superior fazendo uso de tudo o que é hediondo? Nesse sentido, sou muito afeto ao pensamento de Barney Greenway (Napalm Death), que não dá o menor espaço para esses doentes.

Pedro Hewitt – Vejo muitas pessoas deste meio usando desculpas que gêneros do metal, como o de vocês, afastam regras sociais, causando atrito e criando fake news para fazer com que a música extrema não seja símbolo de resistência. O que acham? Vale lembrar de ataques virtuais e presenciais contra eventos abertos como Facada Fest e Hardcore Contra o Fascismo.

DANILO – Acho que pelo fato que o assunto política (aparentemente) causava no meio underground, passou-se muito tempo, na casa dos 30 anos, sem que se debatesse a fundo por um grupamento considerável de frequentadores do meio. Resultou no que vemos agora: um monte de “amadurecido” se identificando com o retrocesso que tanto afeta o progresso da população, esquecendo (ou ignorando) que um dia curtiram porque outros com pensamento libertário atuaram antes e em prol deles. Veja que o ativismo não necessariamente precisa partir ou estar imerso na cena, mas a pauta política de ações voltadas para o crescimento das nuances alternativas é praticamente inexistente, afora a teia conservadora ter se estendido para todos os segmentos. Ou nos organizamos, ou o underground deixará de sê-lo.

Pedro Hewitt – Creio que sempre haverá a chatice da briga “Cenário Nacional X Cenário Internacional”, onde parece ser que o Brasil nunca ficará satisfeito com a bandas que existem. Apesar das reações variantes, o death metal se reformula e se atualizada, as vezes se recusa a perder sua relevância e naturalidade. Na visão do Krapula (que não se perdeu), qual a visão da razão disso? Vivemos num país de bandas de extrema qualidade, isso é fato, escolha para a audição não deve faltar.

DANILO – Tema bem polêmico. Mas, sabendo que não só no Brasil como em toda a América Latina tem bandas excelentes de death metal, vai muito do interesse. Hoje em dia, os meandros para se conhecer bandas novas são vastos. Fica na bolha quem quer. Se não for isso, talvez exista um pé fixo no “viralatismo”, mesmo sabendo que o apelo mainstream internacional é forte. Em contrapartida, as bandas têm de ter na cabeça que mesmo o amador tem de fazer bem feito: a obrigação é oferecer qualidade. Tem-se o freio e o contrapeso. Dá para equilibrar a balança.

Pedro Hewitt – Como está o andamento dos trabalhos por aí, principalmente pro lado mais extremo?

DANILO – Apesar da pandemia, que nos forçou ao distanciamento por medida de saúde, reduzimos a marcha, mas seguimos compondo. Muitas ideias ainda faltam ser alinhadas, mas considerando todo o enredo, mantivemos um bom nível de produção. Paralelamente, aproveitamos para divulgar a banda nos veículos especializados e esperamos o avanço na vacinação para, numa condição segura, realizarmos o show que será o primeiro com a formação nova.

Pedro Hewitt – Mesmo com pandemia as bandas tentam lançar seus materiais, tantos anos depois da explosão do thrash e death metal lá fora, o Brasil parou no tempo. Posso estar um pouco equivocado, mas lançamentos realmente relevantes daqui pra lá ficaram limitados. Vocês concordam que o mercado musical está fechando aos poucos as portas das fronteiras?

DANILO – Aí eu penso que depende de como, onde e para qual público se está direcionando o trabalho. A tecnologia impulsionou as produções independentes e muitas têm qualidade altíssima, por isso as bandas são forçadas a investir em estudos e equipamentos para mostrarem o seu melhor, porque, no final das contas, quem determina se tal banda é ruim ou boa é o público que consome aquele estilo/material. Em que pese um tática bem difundida é chamar os holofotes para si ou induzir essa tendência, através da autopromoção forçada. Esse caminho jamais trilharemos pois é a conduta mais pobre e medíocre que existe e deve ser paulatinamente execrada. Quem dela se socorrer nada tem a acrescentar.

Pedro Hewitt – Seguindo essa linha de raciocínio acima, como vocês observam o mercado musical para as bandas que estão crescendo aos poucos, principalmente ao longo dos meses da Pandemia? E claro, na humilde opinião de todos, como percebem a inserção de mais um disco no cenário nacional de uma banda dos anos 90?

DANILO – Penso que todas as que se dedicaram, para ao menos manter a atividade, considerando toda a sorte de fatores negativos, terão seu esforço reconhecido. Foi um ano de muita penumbra e desestimulante, mas percebi muitas bandas boas lançando material, físico ou virtual. Sobre a chegada de um lançamento com referência de uma época pródiga do BDM, creio que tem duplo efeito: nos alinhamos com a movimentação atual e também passamos a ficar ligados nos trabalhos das bandas (a dita concorrência é bruta!), atuando por reciprocidade na divulgação. Temos uma boa ligação com as bandas Death do Estado, o que facilita o fomento das atividades de forma equilibrada e simultânea.

Pedro Hewitt – Alguma consideração final? O ciclo não se fecha por aqui, vida longa ao cenário pernambucano, nordestino, nacional. Nos vemos por aí, amigos. Stay Death!

DANILO – Agradecemos demais pela entrevista. Toda a ponte com os apreciadores do Brutal Death Metal que não sejam afetados por pensamentos antiquados é bem-vinda. Repúdio total a esses néscios. E um grande salve ao cenário nacional!

Para mais informações, shows e merchandise:
https://www.facebook.com/krapulaband/
Instragram: krapulaextreme
Twitter:@krapulaextreme

Esta entrevista feita por Pedro Hewitt também foi postada no site FullRock

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