Hardcore: dez bandas que ainda sabem fazer músicas de protesto no Brasil
31/03/2021 | Por

Entre grupos reconhecidos e novos nomes do cenário nacional, descubra artistas brasileiros que usam suas letras contra o sistema

No Brasil, a música de protesto ganhou destaque durante o período da ditadura militar e em meados de 1964 movimentos musicais encontraram na arte uma forma de criticar o sistema e chamar a atenção da população para a luta contra a repressão vivida naquela época. Após algumas décadas e vivendo um momento de crise econômica e no sistema de saúde por causa da pandemia do novo coronavírus no país, a música como veículo de informação e instrumento de protesto se torna tão essencial quanto na geração que foi assolada pelo autoritarismo imposto anteriormente por aqui. Conhecido por ser um segmento da música pesada que apresenta rebeldia e letras politizadas, o punk/hardcore desde os anos 1970 carrega consigo a responsabilidade de tocar em feridas abertas da sociedade. Bandas como o The Clash e Sex Pistols ajudaram a emplacar uma imagem ácida e direta da vertente ao expor suas insatisfações com o ambiente social.

Em 2021, mesmo com o crescimento do conservadorismo, do surgimento da cultura do cancelamento e das redes sociais descartando conteúdos de forma cada vez mais passageira, muitos grupos brasileiros ainda seguem a raiz do estilo musical mais sujo e agressivo do rock n’roll e continuam a protestar por meio de suas canções no Brasil, ou seja, as sementes de grupos como o Ratos de Porão, Cólera, Inocentes e D.F.C foram bem plantadas em solo brasileiro. Conheça um top 10 com bandas que ainda sabem fazer músicas de protesto no Brasil:

1. Surra: Considerada por muitos como uma das mais influentes bandas do novo cenário hardcore nacional por seu conteúdo, postura e discurso antifascista, o Surra aborda, em suas letras e ideias, críticas ácidas sociais, sistema público, além de denunciar, sem delongas, a desigualdade, capitalismo, violência em si. Com quase 10 anos de estrada, inúmeros absurdos de shows, turnês internacionais e com músicas que tocam em feridas abertas da sociedade moderna, o trio de Santos vem fazendo história na música pesada brasileira. A banda lançou em 2021 o seu registro mais recente, o ep ”Thrashpunk Teleport: Submundo”.

2. Damn Youth: O Nordeste sempre revelou artistas essenciais para o legado artístico do país. Nascidos em Caucaia e criados em uma escola musical que molda a sonoridade que chama a atenção pela fúria e velocidade necessária para o estilo. O Damn Youth possui seus integrantes experientes de outros ”verões”, que resultou em reconhecimento nacional e internacional, apresentando o crossover pesado e autêntico do quarteto. Em 2018, o split com o Surra, trouxe novos ares para as propostas de ambas as bandas, com todos os vocais com mais energia, letras para irritar o lado conservador da sociedade e uma violência sonora que combina perfeitamente com o que é falado nas letras. Vale destacar que as composições do quarteto são em inglês e letras como “No Mercy to Nazi Simpathy” ganharam o gosto do cenário underground e conquistou vários streams nas plataformas digitais.

3. Eskröta: Formada em 2017, a banda Eskröta é formada atualmente por Ya Amaral (Vocal/Guitarra), Tamy Leopoldo (Baixo) e Jhon França (Bateria), que desde sua formação inicial, tem como principal proposta a luta pela representatividade feminina no cenário e mais espaço para pautas que valorizem os direitos das mulheres na esfera social. O power trio feminino aborda em português temas sociais, o empoderamento de gênero e diversos outros assuntos que provam muito bem o quão é necessário a música de protesto continuar viva dentro do nosso país. Donas de um crossover/thrash de qualidade que chega para ressaltar que bandas boas não surgem somente nas capitais do Brasil, as meninas do interior de São Paulo já têm fãs por todos os cantos do país e participações em eventos e festivais relevantes no circuito da música pesada brasileira. Para completar os destaques da banda, é importante ressaltar que as artes gráficas dos materiais da Eskröta são impecáveis e chamam a atenção por combinarem muito bem com a proposta das letras da banda.

4. Maddiba: Se você é um cara chato que nunca se aventurou musicalmente ou tentou sair da zona de conforto dos seus ouvidos talvez seja melhor nem ouvir o Maddiba. Agora, se você tem bom gosto e curte ver o bom e velho hardcore sendo inovado e fusionado com hip hop e outras vertentes, essa banda é perfeita para você. Se o Beastie Boys fizesse aquela fusão do Dragon Ball com o Hatebreed, é bem provável que o resultado seria o Maddiba. Brincadeira à parte, o trio de Santo André sem dúvidas é uma das maiores bandas da nova safra. Uma curiosidade sobre o grupo gira em torno do próprio nome. Maddiba é uma referência direta ao apelido do líder político da África do Sul Nelson Mandela. Como o próprio nome já deixa claro, o trio carrega em suas letras de protesto diversos assuntos que giram em torno de preconceitos e tabus da sociedade.

5. Manger Cadavre?: Expondo seus ideais e fazendo com que todas as letras deixem em evidência o seu posicionamento, a banda paulista possui uma lista de satisfatórios índices e lançamentos importantes, sendo que em 2017 chegou a ser destaque de muitos sites e blogs com o EP “Revide”.

Com uma frontwoman (Nata) que aplica um verdadeiro “man down” através de um vocal único e invejável que provavelmente a torna uma das principais vocalistas do rock n’ roll em atividade no Brasil, combinando perfeitamente com a proposta sonora da banda, o Manger Cadavre? despeja em cima do ouvinte protestos sobre problemas do cotidiano que vão desde a corrupção do sistema até a luta pela igualdade de classe.

Atualmente, a banda trabalha em cima de um financiamento coletivo para lançar o novo disco que vem para suceder o álbum Anti AutoAjuda (2019) e manter o hardcore/crust do grupo ativo para protestar contra tudo que está errado. Mas você deve está se perguntando qual o significado de “Manger Cadavre?, certo? Ao pé da letra deve representar algo como “Comer Cádaver”, de acordo com o grupo, faz referência ao processo quase antropofágico de auto destruição da sociedade. Banda inteligente e boa de referência, caro leitor.

6. Desalmado: Uns dizem ser grindcore, outros dizem ser death metal, mas a verdade é que a banda vai além de gênero e se torna uma verdadeira “pedrada” de qualidade digna de nomes como o Napalm Death e Brujeria, não é a toa que o trabalho do grupo fez com que eles cruzassem os mares e aumentassem a força do underground SP para o mundo.

O vocal de Caio Augusttus e as guitarras de Estevam trazem, logo na primeira audição, a certeza de que o Desalmado é uma banda que provavelmente ficará marcada na história da cena underground de São Paulo por sua combinação perfeita entre o som extremo e letras que protestam sobre o fascismo e os padrões sociais da vida moderna.

A banda já soma mais de uma década de carreira, mas nos últimos anos tomou uma posição de extrema relevância na cena brasileira e protagoniza como influência para diversos projetos musical que estão surgindo nessa nova fase do cenário.

7. Basttardz: Mal nasceram e se tornaram adultos. A Basttardz é possivelmente a banda mais nova da lista e se tornou uma revelação no cenário hardcore do Brasil após surgir com o álbum de estreia “Brasil Com Z” durante o período de pandemia de Covid-19 no país.

O quarteto de São Luís usa o termo “traficando informações” na abertura de seus shows virtuais para deixar bem explicado que os temas de suas músicas carregam um conteúdo indigesto para quem acha que som pesado e protesto social não podem se misturar. Com letras ácidas herdadas de bandas como D.F.C e um instrumental caracterizado por um crossover visceral, os “bastardos nordestinos” trazem uma crítica urbana cheia de irreverência e revolta.

O lançamento mais recente da Basttardz é o videoclipe do single “Fogo na Zona Sul”, uma crítica a desigualdade social e ao estilo de vida playboy dos jovens da classe rica do país. Destaque para o começo do video fazendo referência ao histórico documentário da Tv Manchete “Os Pobres Vão à Praia”.

8. Dead Enemy: Mais uma legítima representante do Ceará, a Dead Enemy não negocia sua postura, muito menos trata o underground como um negócio. O grupo está sob a violência sonora desde meados de 2018 quando recebeu elogios de todos os lados do cenário hardcore ao lançar o split ao lado dos parceiros da Diagnose.

É necessário mencionar o álbum “Knowing the Enemy” (2020), um material que define perfeitamente a cara da banda. Rápido, agressivo e com letras politizadas, faz jus ao termo “tudo que é bom dira pouco” e é o tipo de disco que precisa ser repetido na íntegra diversas vezes.

O quarteto já se apresentou em grandes festivais como o Infektor Self Festival, Rock Cordel, CarnaMetal, entre outros. Todo o trabalho executado desde então vem conquistando fãs Brasil afora e com muita coisa por vir ainda.

9. CäbräNegrä: Unindo uma arte sombria com arranjos retos e diretos, o CäbräNegrä foca nas críticas ao neofascismo e desgoverno brasileiro para protestar através de suas canções.

A banda de Santa Catarina é formada por Renan Evaristo, Roger Loss e Brudo Reichert e oferece um hardcore/grindcore digno de respeito.

Por meio do álbum Abismo (2020) você possivelmente vai ter o cartão de visitas perfeito para entender o trabalho desenvolvido pelo trio. Canções como “Desinformação” e “Desconstruir/Reconstruir” se destacam no disco. A banda ainda foi adiante e acrescentou ao material faixas remixadas e numa pegada mais eletrônica no final do álbum.

10. Jacau: Um dos grupos mais importantes da cena da Bahia, o Jacau é também um dos principais representantes do cenário antifascista nacional. Além de música de qualidade, o grupo vem desenvolvendo um belo trabalho de integração das bandas de hardcore nacional.

Desde o primeiro lançamento oficial, o disco “Tocaia” (2016) até o single lançado no ano passado, a música “Terra do Ódio”, fica evidente que o objetivo do grupo é tocar um hardcore/crossover direto e feito para quem gosta de música de protesto raiz até porque a banda não enrola muito para dizer o que quer e acertar no alvo o caos existente no Brasil.

Por Pedro Hewitt e André Nadler

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