CORJA: “Qual a graça de tocar algo que não te dá alegria, que você não sente a pegada?” – Entrevista com Haru Cage
28/09/2021 | Por

A banda cearense de metal/hardcore CORJA recentemente lançou o material “Insulto” em todas as plataformas de streaming. A música ‘Do Lar Ao Caos’ particularmente é uma forma brutal de extrema busca de um clima mais agressivo e por uma sonoridade mais densa. Ao longo desta faixa em especial os instrumentos vão flertando entre a agressividade e a pancada que reverbera no estômago de qualquer ouvinte e o refrão vai cumprindo a sua proposta como deve ser, e é com esta base que entrevistamos a front, Haru Cage, nos contando sobre muitos assuntos que estão inclusos na banda e no cenário underground. Confira a entrevista na íntegra!

Pedro Hewitt – O Ceará além de ser um Estado que tenho um grande carinho, considero como um pai para meus projetos, onde consegui grandes amizades e ótimos parceiros neste underground, graças a isso tudo conheci o projeto Corja, um som matador, insano, uma trilha sonora de caos e agonia. Uma satisfação para mim entrevistar vocês.
Haru: Nós agradecemos o carinho, ficamos imensamente feliz em saber que tu curtiu o som.

Pedro Hewitt – Corja literalmente falando é um compilado de pessoas de falsidade e desprezo. Não é um mistério que são uma banda que faz jus às intensidades existentes nas letras executadas, seguindo a linha do gênero death metal mais moderno. Essa era a ideia desde o início da banda?
Haru: A ideia inicial sempre foi expor toda a barbárie de sentimentos, sem filtro, com toda honestidade que pudermos entregar, mas nunca nos apegamos a um estilo só. A prova disso são as músicas recheadas de vários riffs e pegadas de vertentes variadas.

Pedro Hewitt – O clipe de “Do Lar Ao Caos” vem sendo muito elogiado e vocês sempre estão sob algum tipo de produção em estúdio. Fale um pouco sobre a importância das produções digitais em época de pandemia e como a ausência de shows tem impactado a banda.
Haru: Do Lar ao Caos foi nosso primeiro clipe, o fizemos com bastante empenho e carinho. A ausência de shows mexeu com todos, nós tocávamos muito, praticamente todos os finais de semana, mas nos prendeu quietos e focados em finalizar o álbum Insulto.  Produções digitais em época de pandemia ajudou muito com a movimentação da banda, já que tudo tem que ser online e por streamings, conseguimos trabalhar bem nesse quesito e participar de muitos festivais online, muita gente de todo o Brasil nos conheceu assim.

Pedro Hewitt – Na humilde opinião de vocês, como percebem a inserção de mais registros no cenário nacional? Aliás, como vocês olham o mercado musical para as bandas que estão crescendo aos poucos?
Haru: Quanto mais bandas, mais o crescimento da música e enriquecimento de estilos. Atualmente vemos como as bandas estão entregando cada vez mais trabalhos de qualidade, cada vez mais as pessoas estão tendo o cuidado de entregar um material bem trabalhado. É um trabalho contínuo.

Pedro Hewitt – Fica nítido nas letras, nos vídeos, que a banda é posicionada ideologicamente. Em tempos obscuros, qual é a importância em levar a mensagem contra o fascismo em letras ou posicionamentos?
Haru: Como público é essencial saber o que seu artista/banda favorita segue e apoia. Me posicionar mostra de que lado estou e no que eu acredito. A importância de ter a mensagem passada e entendida é imensurável, para que tudo o que estamos passando não seja repetido futuramente.

Pedro Hewitt – É muito esquisito ver o nordeste repleto de skinheads e grupos de ódio a LGBTs. Agressões são constantes e apavoram pessoas de várias idades e em Fortaleza não é diferente. Já houve algum caso no meio de algum show sobre isso?
Haru: Não nos deparamos com esse tipo de situação até agora, seja em nossos shows ou mesmo algum festival que andamos por aqui, mas sabemos que tudo é real, temos sempre que  combater, não deixar esse tipo de atitude nojenta e pessoas com esse pensamento mesquinho se “criar” . Aqui não tem vez!

Pedro Hewitt –  Qual importância do português hoje em dia no underground? Já pensaram em algo somente em inglês? Ou continuarão na mesma linha? É uma obra de arte sentir a potência dos vocais, com letras em português. O impacto soa maior.
Haru: O português passa o entendimento da mensagem mais rápido, é mais fácil de aprender, logo a galera aprende o refrão e tudo. Nós realmente curtimos muito letras em português, para o futuro já pensamos em “mesclar” com algumas músicas em português e outras em inglês.

Pedro Hewitt – Em alguns casos, com reações boas ou ruins, o som que executam se recusa a perder sua relevância em vários casos, mas em outros pode ocorrer por algum motivo. Na opinião de vocês, qual é a razão para isso? O Brasil está cheio de bandas que querem mudar seu som para agradar, tocar em algo, não sei ao certo. Enfim, como está sendo o cenário de uns tempos para cá?
Haru: Pode ser uma coisa de época, o lance altos e baixos, acho que isso é bem fluido e normal. No nosso caso não conseguiríamos tocar algo para agradar os demais. Qual a graça de tocar algo que não te dá alegria, que você não sente a pegada? Antes da pandemia, tava rolando show o tempo inteiro, vimos a crescente onda de fests, haviam casas novas para apoiar o rolê, tinha festival todos os finais de semana. Com a chegada da pandemia, o formato mudou para o online, tivemos um grande crescente de pessoas de outros estados que passaram a acompanhar a banda, mas ao mesmo tempo vemos os efeitos colaterais de casas de show sendo fechadas e a música perdendo mais espaços.

Pedro Hewitt – Haru, você sendo a frontwoman, como você define as características mais marcantes sobre o seu trabalho na banda?
Haru: Eu acredito que a agressividade do meu vocal é a coisa mais marcante, mas o negócio “pega” no ao vivo, cara a cara, isso me dá muita energia para querer sempre entregar a minha melhor performance. A cada show eu sempre quero entregar o melhor de mim.

Pedro Hewitt – Levando a resposta anterior, qual artista feminina te inspirou e/ou inspira para definir seus traços de trabalho e criatividade dentro e fora dos palcos?
Haru: Essa é uma pergunta cabulosa! (risos) Porque foi aquela coisa por etapa, por idade e inspiração. Eu comecei com Courtney Love, logo conheci o Kittie e me inspirei muito na Morgan Lander. Pouco tempo depois eu descobri OTEP e o álbum SEVAS TRA que achei incrível e o vocal da Shamaya parecia uma panela de pressão sendo jogada nas suas costas! Então meio que eu fui passando por essas etapas, atualmente a artista que mais me inspira é  a Candace Puopolo do Walls of Jericho.

Pedro Hewitt – Além de vocalista você atua como tatuadora, artista em geral, antifascista, forte defensora da causa LGBTQIA+ e feminista. Nos registros das artes áudio visuais há vários detalhes a observar, principalmente do Alcides Burn em ‘’Insulto’’. Como funcionou a elaboração e parceria? Vocês escolheram a arte pré pronta ou foram dando ideias conforme as revoltas surgiam até chegar ao resultado que vemos?
Haru: De acordo com as letras eu fui pensando na arte de capa, a ideia da pessoa sufocando eu pensei desde sempre e peguei algumas referências e conversei com os outros integrantes,  daí o Silvio que teve essa ponte com o Alcides e foram conversando sobre as ideias adicionais de acordo com o som e tema da banda. Ficou um trampo lindo, o Alcides quebra demais.

Pedro Hewitt – Você também participou da palestra ‘’Reversões Femininas’’ na edição deste ano do ForCaos. Como se deu a parceria e a idealização de um tema tão forte como este?
Haru: Parceria foi com a Associação Cultural Cearense do Rock (ACR) que é responsável pelo Forcaos, e me foi feito o convite pela antropóloga Abda Medeiros que mediou a conversa. Na cena temos uma pluralidade tão rica de mulheres em várias áreas que atuam no metal, que esse tema surgiu naturalmente.

Pedro Hewitt – O que vocês acham dessa galera que faz sucesso muito rápido hoje em dia, isto é, sobre o mercado musical? E desses movimentos em prol ao rock atuais, como coletivos, etc…?
Haru: Eu acredito que seja uma coisa muito relativa, as vezes a pessoa tem uma baita equipe no suporte, trabalhando para isso acontecer e que também entra nas graças do povo, pode ser questão de sorte, então creio que cada caso é um caso e que cada um pode ter seu mérito, existe público para todo mundo. Sobre os coletivos de rock eu acredito muito neles, aqui em Fortaleza existem alguns como a própria ACR, Abrigo Nuclear e o COLETIVO GIRLS TO THE FRONT que trabalham muito para que a cena continue viva.

Pedro Hewitt – Considerações finais? Saúde sempre para todos nós. Que a rebeldia nunca nos falte e que possamos dividir um palco após toda essa situação melhorar. Nos vemos. Abraço forte a todos.
Haru: Desejamos saúde para todos, agradecemos o convite dessa entrevista. Esperamos ansiosamente para que ano que vem tudo esteja melhor, mais encaminhado e que possam rolar os show’s! Quem quiser conhecer mais sobre a CORJA! Chega no intagram @corjametal. Abraços!

Para mais informações, shows e merchandise:
https://www.facebook.com/corjametal

Créditos: Vicente Ferreira. Natércia. Divulgação.

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