CDs | Heaven and Hell – Black Sabbath (1980)
25/04/2020 | Por
heaven and hell

Resenha por: Elias Cavalheiro

40 anos de Heaven and Hell, o disco que revolucionou na maneira de se fazer heavy metal na década de 1980

O Black Sabbath sempre foi uma banda que quebrou paradigmas na indústria musical. São os pioneiros do Heavy Metal, além de criar o Doom Rock e o Stoner Rock, subgênero marcante pelas harmonias e letras mais psicodélicas, vocais limpos e por uma roupagem que remete aos sons produzidos nas décadas de 1970 e início dos anos 1970. Mas tudo isso mudou após a saída do então vocalista Ozzy Osbourne, em 1979, e a entrada de seu substituto, o baixinho Ronnie James Dio, já conhecido pelos seus trabalhos com o Elf e o Rainbow. Dio, apesar de não ser inglês (era estadunidense), era referência entre os amantes de vocais mais rasgados e metálicos. Seu timbre único e sua tessitura vocal de um excelente tenor dramático deram uma roupagem única para a banda no início dos anos 1980, que foi responsável por nortear a New Wave of British Heavy Metal para qual o tipo de som que o público pagaria para ouvir. A resenha de hoje é sobre o primeiro e mais icônico trabalho de Dio com o Black Sabbath, Heaven and Hell, que completa 40 anos neste dia 25 de abril. Será que o disco é tão bom mesmo nos dias de hoje?

1 – Neon Knights
Temos aqui uma excelente música de abertura, curiosamente foi a última a ser gravada em estúdio. A letra desta música remete a momentos únicos, de algo não cotidiano, tudo aqui é abordado de maneira bastante subjetiva. Os tais Cavaleiros de Neon podem ser uma referência a polícia, mas é interessante citar a parte em que é citado que dragões e reis tecem um feitiço, abençoado pela noite e pelo toque dos sinos. Em seguida anjos ensanguentados surgem e vultos de fantasmas livres para sempre, que podem ser os tais chacais da noite, também mencionado na música. Como dito anteriormente, tudo aqui é subjetivo, pode tanto ser algo fantasioso como também um eufemismo para ilustrar o uso da força policial sob uma população insatisfeita com o seu líder. A música é uma das mais rápidas do disco, e todos os integrantes se destacam em diferentes momentos da mesma (até mesmo Bill Ward, que conta que gravou essa música extremamente chapado). Destaque também para o excelente solo de Tony Iommi, que aliás também se sai bem em todas as músicas com solos marcantes em quase todas elas.

2 – Children of the Sea
Aqui entramos no primeiro grande clássico da era Dio. Não que Neon Knights não seja, mas é aqui que vemos o poder vocal de Dio com mais destaque. A música começa de maneira tímida, com Dio cantando de maneira suave após a pequena frase do baixo (vale ressaltar que a contribuição de Geezer Buttler neste álbum é quase nenhuma, quase todas as linhas de baixo foram compostas por Dio e Tommy). Após a primeira parte, a música entra num riff simplesmente sensacional, que evidencia a ótima melodia de voz executada por Dio. A música fala sobre marinheiros que atravessaram as dificuldades do mar (mar este que, mais uma vez, pode ser entendido como as adversidades da vida), e após chegarem ao seu destino, se deparam com algo completamente diferente do que eles esperavam. Também aqui nos deparamos pela primeira vez com uma das marcas de Dio, o seu “Look out!” que também aparece em outros álbuns de sua carreira e apresentações ao vivo. Uma curiosidade: Essa foi a primeira música que a banda gravou em estúdio.

heaven and hell
Capa de Heaven and Hell. (Foto: Reproducao)

3 – Lady Evil
Uma das minhas músicas preferidas deste lindo disco. Aqui é o momento do baixo de Geezer Buttler brilhar logo em seu início. Com mais um riff maravilhoso, desta vez com destaque maior para o baixo ao decorrer da música. Aqui também temos uma clara referência de Dio nas suas épocas com o Rainbow e o Elf, que são suas de temática fantasiosa que posteriormente originaram o Power Metal. A música esboça as características de uma bruxa, que vive ao sul deste mesmo vale, que se alimenta da escuridão, que ela te descobrirá e te possuirá a noite. Enfim, uma letra bacana para uma música bacana, esta música é mais voltada para o hard rock do que para o heavy metal, e é justamente isso que dá esse charme todo dentro do Heaven and Hell. Aqui temos dois solos de guitarra de Tony Iommi, tanto no meio da música quando em seu final.

4 – Heaven and Hell
Finalmente chegamos na música título deste excelente álbum. Heaven and Hell é mais lenta do que todas as outras músicas, pelo menos até a segunda metade. A letra exibe as contradições e reflexões acerca do que é real e o que não é. Na segunda metade desta música ela acelera e a letra passa a falar do poder de persuasão das pessoas, de roubar seus sonhos e te impedir de ver as coisas da vida como elas realmente são.  Sem dúvidas é um hino do heavy metal, uma excelente música.

5 – Wishing Well
Outra das minhas favoritas e a mais alegre do disco. A música tem um ritmo e atmosfera muito convidativa para pessoas que não estão acostumadas com o gênero musical. A letra fala a respeito de alguém que pode lhe realizar qualquer desejo, fazendo analogia com a superstição do poço dos desejos. A música também fala sobre o amor, que não é algo que você pode comprar ou barganhar, e que ele ocupa o lugar das lágrimas da tristeza. No final a letra faz um jogo de palavras com “well”, que hora significa bem, hora significa poço. Destaque aqui para as linhas de baixo e de bateria.

6 – Die Young
Uma faixa que inicia com os teclados, também gravados por Dio em estúdio. E aqui temos um dos mais emblemáticos riffs, que serviram de inspiração para a NWoBHM, como o Iron Maiden no início da carreira. A música também é cheia de pequenas passagens de Tony Iommi solando entre as partes cantadas. Já a letra é uma das mais belas do disco, que aborda sobre morrer jovem. Morrer com as ambições, a determinação e desejos de um jovem. O destaque aqui fica para a ótima interpretação de Dio nos vocais, além dos vários solos que essa música tem. Sem sombra de dúvidas um outro grande hino na carreira da banda.

7 – Walk Away
A penúltima música do disco é também a mais introvertida. De todas as pessoas que converso sobre heavy metal, Black Sabbath e Dio, essa é a música menos lembrada, isso quando lembrada. A letra desta música também não é lá grandes coisas, fala sobre desapegar de pessoas que a primeira vista podem parecer a coisa mais linda e atraente do mundo, que as vezes o tipo de amor que a pessoa representa não é de fato algo que te fará bem. A música, como podem ver, é bem simples, não tem solo, e parece mais hard rock do que heavy metal. O único destaque dela fica mesmo pelo baixo, que é bastante perceptível. O “patinho feio” do disco não deve ser desconsiderado, pois a música ainda é boa, apesar de ser a mais fraca e opaca do disco. Mas em compensação a próxima música, meus amigos…

8 – Lonely is the Word
A expressão “guardou o melhor pro final” não teve tanto significado quanto neste disco. A oitava e última faixa é absurdamente boa, com uma das mais belas melodias e letras da carreira da banda. A faixa é lenta, segue um andamento bem progressivo, tem um clima pesado, com uma letra que descreve alguém que perdeu tudo na vida, e que está tão desanimado a ponto de entrega-la para a morte. Isso fica evidente quando, em certo momento da canção, a mesma fala que o personagem contava em milhões, mas que agora só conta de um em um, fazendo analogia aos bens materiais, restando pouquíssimas coisas que ele pode enumerar. Solidão é a palavra para tudo o que este homem sente. O tal viajante, mencionado na música, é a morte, que pega em sua mão e o leva para o único caminho que ela conhece, que é o fim de tudo. A melodia da música é impecável, todos aqui estão perfeitos, A bateria de Bill Ward ditando os compassos, o baixo de Geezer Buttler acompanhando a bateria e tendo seus momentos de destaque nas partes instrumentais, Dio está cantando muito bem (interpretação em músicas mais lentas é uma de suas especialidades), e Tony Iommi traz, literalmente, o melhor solo já executado pelo Black Sabbath, e talvez o melhor solo do heavy metal. Aqui Tony conseguiu ser pesado, melancólico, triste, impactante, tudo isso ao mesmo tempo. Os solos são bem longos, mas não cansam o ouvinte. E é ainda mais emocionante citar tudo isso a respeito de Tony nesta música em especial, porque estamos falando de um dos melhores guitarristas da história da música, com um solo perfeito, composto e executado por um guitarrista aleijado. Talvez, TALVEZ, esta música também tenha um pouco a ver com ele, que, ao perder a falange de dois dedos, tenha se sentido solitário e sem esperanças de continuar como guitarrista, mas que superou este desafio. Vale mencionar que a versão ao vivo de 2007, no Radio City Music Hall, é ainda melhor que a versão de estúdio.

Esta foi a resenha deste lendário disco, que até os dias atuais continua sendo um excelente trabalho da carreira da banda, que inovou mudando de vocalista e de sonoridade, acrescentou elementos novos, melodias mais bem trabalhadas, e foi o álbum que redirecionou todo o gênero durante a década de 1980. Haven and Hell é audição obrigatória para todo fã não só de rock e heavy metal, como também de música, e principalmente de música boa.

Heaven and Hell foi o primeiro disco de Dio no Black Sabbath

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